Há alguns anos atrás a lésbica masculinizada era chamada, principalmente, de paraíba, mulher-macho, maria-rapaz, sapatão, caminhoneira e algumas outras palavrinhas chulas. A sociedade, dedo em riste, as apontava com rispidez. Com isso não quero dizer que ainda não o façam. Fazem, e muito. Mas, estamos na era Brasil Sem Homofobia. Ou não?
Como aprendemos a definí-lo, gênero só existem dois: masculino e feminino. Contudo há de se considerar que é preocupante o fato de pensarmos que, para algumas pessoas, a identidade biológica e a identidade de gênero estejam relacionadas, sendo o masculino no homem e a feminilidade na mulher um destino. O mosaico das identidades, embora difícil de explicar, precisa ser visto sob a ótica de quem consegue direcioná-lo para um processo de desconstrução e descontinuidade de valores. Verdades e estruturas precisam ser retomadas. Novos desenhos e configurações precisam ser considerados, caso contrário não será possível abrir novas fronteiras e abraçar uma nova genealogia de gênero.
A esfera sócio-cultural sempre tentou impor como homens e mulheres devem gesticular ou demonstrar os seus comportamentos, atitudes, modos de se vestir, falar e agir. Isso é mais do que desrespeito, isso é terrorismo. Segundo o psicólogo Sérgio Gomes, “As identidades de gênero tendem a estar em consonância com o biológico do sujeito, porém, não são estruturas fixas, encerradas em si mesmas; pelo contrário, podem e estão continuamente se renovando, em ebulição, e a cada momento podem ser novamente moldadas de outras formas. Elas também são impostas pelo processo de socialização, que impede construções singulares. Apesar de não ser uma condição para a formação das identidades sexuais, elas estão intimamente ligadas à escolha afetiva e sexual do sujeito. Nós podemos encontrar sujeitos masculinos ou femininos, que não necessariamente pertencem ao seu biológico, e que podem fazer uma escolha afetiva e sexual do oposto ao seu”.
Se quisermos ser absolutamente coerentes devemos afirmar, sem constrangimento, que a masculinidade não é propriedade exclusiva do macho; há, com certeza, uma masculinidade feminina e que, necessariamente, nem sempre, está relacionada à homossexualidade.
Pelo sim ou pelo não as butches existem. Masculinas, poderosas e austeras, elas preferem mulheres femininas cujo comportamento possa estar em conformidade com os modelos de relacionamento tradicionais masculino-feminino. Será que, ocupadas e tratando de sobreviver, não tiveram tempo de criar novos padrões de relacionamento mais adequados para casais de lésbicas? É preciso muito cuidado quando tentamos falar sobre elas que, sem dúvida, não são mulheres que pretendem ser homens. Vejam o que diz Susie Bright em seu livro Sexo entre Mulheres (Edições GLS) “Butches não são mulheres que desejariam ser homens. Butches são mulheres que se sentem mais à vontade com comportamentos tidos como masculinos, mas que na verdade podem ser praticados tanto por homens quanto por mulheres. Butches, sequer são sempre lésbicas, visto que muitas mulheres heteros preferem esse mesmo jeito simples e direto de se expressar e vestir. Femmes, do mesmo modo não são mulheres à espera de um homem pra lhes mostrar as maravilhas da vida heterossexual. Femmes são mulheres que se sentem atraídas por mulheres, e ao mesmo tempo gostam do papel tradicionalmente feminino criado pela sociedade. Muitas vezes, femmes se sentem atraídas por butches e vice-versa, mas simplesmente porque esta parece ser uma boa combinação de energias, e não porque desejem imitar modelos heterossexuais. São dois tipos culturais que, é claro, não existem em estado puro, sendo cada mulher uma mistura das duas tendências de comportamento e aparência, ou nenhuma delas como a androginia vem demonstrando”.
Os termos butch e femme são expressões usadas desde a década de 50 pelas comunidades lésbicas norte-americanas e, ao se complementarem mutuamente, codificam identidades e comportamentos que não perpetuam a heterossexualidade obrigatória.
Precisamos considerar que há muitas maneiras de ser masculina. Basta observar. Há tantas quantas são as maneiras de ser masculino para os homens. Assim, as butches podem adotar os vários códigos disponíveis de masculinidade. É aí que mora o perigo. Se, de um lado, existem as butches levemente masculinas, as demasiadamente masculinas e algumas drag-kings e que passam por homens, há, também, as butches que adotam comportamentos masculinos não aceitáveis. Interessantes são as butches que adotam as imagens masculinas idealizadas como as ideais, são corteses, protetoras, acendem o cigarro, abrem as portas dos carros.Essas imagens que vemos no cinema [risos]
