Sobre Bissexualidade
http://paradalesbica.com.br/2010/01/sobre-bissexualidade/
Para os sempre incompreendidos e para os que não compreendem.
Tem uma frase no perfeito livro de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, que diz: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. E é bem isso, não é? Como você pode se definir? Como você pode definir a qualquer um? O que somos, o que nos forma, não pode ser abraçado por nenhum código lingüístico! O que cada um de nós é, não pode nunca ser totalmente nomeado por palavras ou definições.
Dito isso, quero que você me ajude aqui, está bem? Quero que você reflita comigo. Quero que você imagine uma realidade diferente: imagine que, ao nascer, cada um de nós aprendêssemos que somos livres para amar qualquer pessoa. Que não existe essa história de homem e mulher, não. Que você, humano, pode se apaixonar por qualquer outro ser humano. Casais, na realidade, seriam aqueles unidos pelo amor. Só isso. Nada de pênis ou vagina definindo quem é quem. O que lhe bate no peito, essa coisa sem nome que você na realidade é, é que definiria quem você é e por quem você se apaixonaria.
Imagine, por um momentinho apenas, que as histórias de contos de fada falam apenas sobre amores: uma pessoa se apaixonando por outra pessoa. Uma pessoa sendo resgatada por outra pessoa. Uma pessoa sendo acordada por outra pessoa.
Imagine que não aprendêssemos que existe um “certo” e um “errado” na hora de amar alguém. Que simplesmente fôssemos livres para nos deixar encantar por seres humanos que são encantadores. E o mundo seria simples assim: eu amaria quem me despertasse amor. Eu me apaixonaria por quem quer que me despertasse paixão.
Claro que nem todo mundo necessitaria se apaixonar por alguém do sexo aposto ao seu. Nem todo mundo necessitaria se apaixonar por alguém do sexo igual ao seu. Haveria os homens que se apaixonariam apenas por mulheres. Haveria as mulheres que se apaixonariam apenas por homens. Haveria os homens que se apaixonariam apenas por homens. Haveria as mulheres que se apaixonariam apenas por mulheres. E, claro, haveria aqueles que poderiam se apaixonar tanto por homens, como por mulheres. E eles não seriam julgados por isso.
A verdade é que, muito do somos, é sim pelo que aprendemos ao longo da vida. Somos, felizmente ou infelizmente, formados também pelos conceitos de “certo” e “errado” que conhecemos.
Sei que, no mundo homossexual, por exemplo, há aqueles que têm preconceito pelos bissexuais: seja porque acham que eles na verdade ficam “em cima do muro”, seja por medo que o seu parceiro ou a sua parceira de uma hora para outra os abandone para ficar com alguém do sexo oposto.
E, honestamente, isso é fruto apenas da nossa insegurança e desinformação. Bissexuais são nada mais do que seres humanos que se apaixonam por seres humanos. Assim como você. Assim como eu.
As rotulações que fazemos – hétero, homo e bissexual – são nada mais do que teimosias: tentativas nossas de colocar nome justamente nessa coisa inominável que somos.
Sim, eu, como lésbica assumida, posso dizer que seria muito improvável, praticamente impossível realmente, me interessar por um homem. Mas o que isso quer verdadeiramente dizer sobre mim? Talvez apenas diga que eu tenho olhos só para as mulheres. Porque são elas que me encantam, são elas que despertam paixão em mim. Mas isso me faz melhor ou pior que alguém? De forma alguma!
Então, que tal deixarmos de lado esses nomes que só nos assustam, que só nos dividem? Que tal aprendermos que na realidade somos seres humanos que amam seres humanos: e ponto final!
Não percamos tempo dividindo o nosso amor em certo e errado! Em aceitável e não aceitável!
Abramos nossos olhos para a complexidade que nos forma! Não alimentemos mais espaços ainda para incompreensões e condenações!
Se você é homossexual, você sabe o que é viver na margem. Você sabe o que é ser julgado e condenado por amar quem você ama. Então como praticar esse mesmo tipo de ação dolorosa e injusta porque uma pessoa é capaz de se apaixonar por outro ser humano, seja ele homem ou mulher? Não, não devemos ser tão pequenos. Nosso olhar não pode ser tão limitado.
Os bissexuais sofrem preconceitos de heterossexuais e de homossexuais. E por quê? Que pecado eles cometeram além de serem capazes de amar qualquer outro ser humano?
É hora de crescermos. De aprendermos a olhar direitinho. De enxergarmos os outros com os mesmos olhos que gostaríamos que nos direcionassem.
É hora de oferecer compreensão aos incompreendidos.
É hora de amar seres humanos justamente pelos seres humanos que eles são
